Sobre

Desde o começo da pandemia, tenho questionado muito a nossa faculdade de escuta, visto que somos bombardeados de informação visual a todo momento pela internet. Como uma forma de lidar com isso, uma das ações que mais fiz em 2020 foi fechar os olhos para expandir minha capacidade de escuta. Eu fiz isso na tentativa de ser genuinamente afetada pelo outro e pelo ambiente, quem sabe descobrindo uma maneira de ver através dos ouvidos. Nesse movimento, percebi um paradoxo: ao mesmo tempo em que o mundo exigia recolhimento, que até certo momento me soa também como uma necessidade de silêncio, nunca foi tão urgente a necessidade de expandir e disseminar discursos até então abafados; não ouvidos e não vistos. Assim, se por um lado se silenciava, por outro era preciso gritar. E na negociação dessas ações sinto residir uma tensão interessante. Foi com estas reflexões em mente, que a ideia do projeto “paisagens colaborativas” surgiu . A ideia é criar territórios virtuais de fala e escuta por meio de plataformas digitais em que as pessoas possam compartilhar áudiotextos afetivos*. São dois formatos: áudio (mp3) por meio de um podcast no Spotify e texto (a transcrição do áudio) a ser publicada em um blog. Com isso, buscamos reunir vozes, histórias, vibrações. Queremos aguçar o sentido da escuta e fazer dos nossos ouvidos meios de enxergar. Enxergar pelas afetações das vibrações sonoras de corporeidades. Aqui, pensamos paisagens como um território em passagem, um movimento de constante configuração e desconfiguração. Estendemos o sentido de paisagem e pensamos paisagens interiores que configuram paisagens exteriores e vice-versa. Um fluxo de dentro-fora e de fora-dentro até as fronteiras borrarem e restar o fluxo. Nesse fazer, redefinimos territórios constantemente e criamos possibilidades de novos e outros mundos – mais plurais.

Público: livre.

*Não tem uma temática específica, a proposta é que seja um texto que tenha valor afetivo para você. (EX: um relato, a receita da sua comida preferida, uma descrição – como da vista da sua janela, de um lugar, de uma pessoa especial para você, de uma fotografia – uma crônica, um ensaio, uma carta que você recebeu ou escreveu, a letra de uma música e/ou uma poesia que você escreveu.). O protagonismo aqui não é a formalidade do conteúdo e sim sua relação afetiva com o que se propôs a compartilhar.

Espero que degustem, apreciem e se afetem.

Com carinho,

ibt.